Ser mãe é talvez a maior entrega pela qual alguém pode passar. Uma entrega em queda livre com os sentimentos mais variados que vão do amor incondicional ao medo irracional e até ao “o que eu fiz com a minha vida?”. Tudo isso às vezes no mesmo dia.

Pois é, ser mãe não é fácil.

E nesse comecinho de mês em que celebramos o Dia das Mães, queríamos fazer uma reflexão e compartilhar com vocês os nossos pensamentos sobre… compartilhar.

Mas antes, uma breve introdução:

Quando somos crianças, salvo raras exceções, o conceito de compartilhar não é algo que nos agrada muito… Mas aprendemos a compartilhar quando temos irmãos ou mesmo na escola isso é frequentemente trabalhado. Compartilhar é talvez a primeira noção de justiça com a qual entramos em contato.

 

 

Quando crescemos e fazemos amigos, compartilhar passa a ser uma vontade e nos jogamos no aspecto mais legal de compartilhar que é criar uma intimidade. Compartilhamos segredos, medos, sonhos, sentimentos que às vezes nem a nossa família sabe. Também compartilhamos momentos que vão ficar para sempre em nossa memória. Mesmo que ao longo da vida nossos círculos de amizade mudem, nunca vamos esquecer quem fez parte do nosso crescimento e que de alguma forma nos marcou. Essa vivência compartilhada é algo que levamos conosco para sempre.

 

Crédito: Unsplash/Gaelle Marcel

 

Aí em algum momento vamos conhecer alguém por quem o afeto será ainda maior. Sim, estamos falando do amor. E apesar de que ninguém precisa ter um relacionamento amoroso para ser plena, vivenciar o amor e um relacionamento estável é uma experiência muito boa, principalmente para nos conhecermos.

 

Crédito: Unsplash/Kelly Sikkema

 

E um dia, esse relacionamento pode virar algo mais, um pacto de compartilhar a vida. A concepção de casamento como instituição já teve várias crises e é falido em muitos sentidos. Felizmente hoje o casamento diz respeito, ou pelo menos deveria, a unir forças com alguém que gostamos, dividir uma vivência e ter objetivos em comum. Dividir uma casa nem é mais um requisito. E aqui também entra o primeiro desafio de compartilhar.

Um relacionamento onde não há um sincero compartilhamento de ideias, necessidades e sentimentos, onde apenas um lado se dedica, dificilmente vai perdurar. Ou talvez dure, mas sempre às custas da anulação emocional de um dos envolvidos. Não podemos estar em um relacionamento com medo de errar, de se expor. Demonstrar o que queremos e o que não nos agrada faz parte de ter um parceiro. Aquela história de que todos os lados precisam regar a plantinha que é o relacionamento é verdade. Não pode ser responsabilidade de apenas uma pessoa.

E então chegamos à escolha da gravidez. Outra experiência que não é obrigatória, nem faz parte de uma lista de “coisas que precisamos fazer durante a vida”. Mas para quem opta por esse caminho, o termo compartilhar chega a um patamar nunca antes vivido. Você LITERALMENTE compartilha seu corpo com alguém. E não estamos falando apenas de ter um ser humano crescendo dentro de você. Mesmo nos casos de adoção, nossa energia e nossos corpos passam a se dedicar a outra pessoa em um nível inédito.

 

Crédito: Unsplash/Jan Canty

Ser responsável pelo cuidado e formação de uma pessoinha, nesse mundo tão desafiador, é ao mesmo tempo mágico e assustador. Mas sabe como é, somos humanos complexos, temos nossos próprios sonhos e realizações que queremos alcançar. A maternidade é algo muito importante, mas não é tudo que queremos ser. Não nos define ou reduz a um único papel. Por algum tempo talvez a gente só queira isso mesmo, mas em algum momento vamos querer ir atrás dos nossos sonhos. Até porque o compartilhamento mais difícil que vai acontecer é quando essa vida que você cuidou por tantos anos estará pronta para conduzir sua própria vida. Sim, você vai precisar compartilhar seu filho ou filha com o mundo.

 

Crédito: Unsplash/Kabita Darlami

Mas até chegar a esse ponto demora muitos anos, então vamos voltar ao caminho.

Quando se tem um bebê a dedicação é integral. Sono profundo? Pode esquecer por um bom tempo. Seu suado dinheirinho que antes era usado para o que você quisesse, vai ser convertido em fraldas. Os rituais vão fazer parte da sua vida, seja o de mamar, o do banho ou de colocar para dormir. Corridas para o médico? Incontáveis.

Muitas pessoas encaram essa maratona sozinhas. Mães e pais, os “pães”. E tem aqueles que até têm um parceiro, mas o desequilíbrio das funções faz esse trabalho de cuidado ser muito mais difícil para um dos lados, que geralmente é o da mãe.

Da mãe porque fomos criados em uma sociedade patriarcal, que inacreditavelmente até os dias de hoje ainda tem uma cultura da mulher ligada aos cuidados do lar e do homem provedor.

Felizmente isso está mudando e cada vez mais temos exemplos onde essa estrutura não se aplica.

 

Crédito: Unsplash/Annie Spratt

E se a troca de papéis tem se tornado comum ou mesmo a consciência de que, quando se está em um relacionamento, não pode haver apenas um responsável pelas tarefas domésticas e de cuidado, a sombra da supermulher ainda se faz presente.

Achamos que a gente deve dar conta de tudo, de deixar a casa impecável, de ser a melhor e mais atenciosa mãe, de estar presente, e de ter uma carreira de destaque, afinal somos mulheres independentes não é mesmo? E nessa busca alucinada por perfeição, acabamos esquecendo o mais importante: nós mesmas e nossa qualidade de vida.

É loucura tentar fazer tudo isso sem nenhuma rede de apoio para compartilhar parte das tarefas diárias.

A rede de apoio pode ser o seu parceiro/a, pode ser sua família, pode ser seus amigos, a creche, alguém que você contrata para ajudar. Mas precisa ter alguém.

E embora necessário, compartilhar pode ser muito difícil. Podemos achar que ninguém vai cuidar do nosso filho como nós cuidamos. Ou ninguém vai fazer as coisas tão bem como nós mesmas.

Compartilhar as responsabilidades não é só uma questão de otimizar o nosso limitado tempo. É um grande aprendizado de desprendimento que precisamos ter.

Em alguns casos, o relacionamento amoroso que fez muito sentido em um determinado momento talvez pare de fazer. Você não vai ficar em uma relação que não é mais benéfica para você. O caminho deixa de ser compartilhado e cada um toma um rumo diferente. E se nesse relacionamento tiver filhos envolvidos, vocês vão ter que compartilhar mesmo que sem a convivência.

Ninguém se envolve com alguém pensando que um dia vai acabar. Ninguém tem um filho pensando nas enlouquecedoras possibilidades do que pode dar errado. Ninguém vive pensando que um dia vai morrer.

Nós sabemos que vamos, mas o objetivo é justamente o de viver o caminho até lá da melhor forma possível.

Para além da maternidade, em praticamente toda a vida teremos que lidar com o ato de compartilhar.

Precisaremos dividir responsabilidades, experiências, contar com o apoio de outras pessoas e do mercado de trabalho, para que ele pare de excluir as mães no acesso a oportunidades ou que as veja como uma potencial despesa em um determinado momento da carreira.

E mais do que isso, se você assistiu ao filme “Na natureza selvagem”, se deparou com a frase “A felicidade só é verdadeira quando compartilhada”.

E é verdade.

Dividir momentos com pessoas é a parte mais bonita da vida.

Compartilhe e faça parte.