Adoção e apadrinhamento afetivo – formas de amar

Toda criança e adolescente merece um lar onde poderá ser amado e se desenvolver. Da mesma forma, muitas pessoas querem viver a experiência de ser pai ou mãe, e por diversos motivos às vezes isso não ocorre de forma biológica. Mas isso não é essencial. Para viver a maternidade ou paternidade basta a vontade de amar e contribuir para a formação de outro ser humano.

O dia 25 de maio foi definido como a data para ressaltar a importância da adoção aqui no Brasil, porém, a realidade é um pouco mais complicada. Segundo dados do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento, que são atualizados diariamente, cerca de 34 mil crianças estão acolhidas em equipamentos do país, das quais pouco mais de 5 mil estão disponíveis para adoção, quando os genitores biológicos perderam definitivamente o poder familiar, e 2.700 já passam pelo processo de serem adotadas. Do outro lado, temos mais de 36 mil pretendentes que querem ser pais.

E quem entra na fila para adotar se queixa da demora do processo. Uma gestação que pode durar muito mais do que nove meses, com muita expectativa e ansiedade. Mas essa lentidão ocorre em grande parte por causa da dificuldade de unir perfis, quando a maioria dos futuros pais preferem adotar apenas uma criança pequena, com menos de três anos, e a maioria das crianças que estão no  sistema de acolhimento possuem irmãos e são pré-adolescentes ou adolescentes.

Pensando nessas crianças com mais de dez anos de idade, de alguns anos para cá surgiu o programa de apadrinhamento afetivo. Assim, crianças e adolescentes sem possibilidade de retorno familiar e com poucas chances de adoção, poderiam desenvolver vínculos de afeto estáveis com outras pessoas além das que fazem parte da instituição de acolhimento. “A vida destas crianças e adolescentes carece justamente destas referências estáveis de afeto. Os vínculos familiares foram rompidos, os cuidadores das instituições se vão, os acolhidos entram e saem, por vezes são os próprios que mudam de instituição”, conta Carla Eberlein, juíza da Vara da Infância e Juventude da Lapa, em São Paulo. “Para ser padrinho ou madrinha de uma criança ou adolescente é preciso estar disponível para oferecer e dar afeto, bater papo, trocar experiências de vida, e principalmente acreditar que é possível ser uma referência positiva na trajetória de vidas carregadas de decepções. Não é pouca coisa!”, completa Carla.

Apesar de ocorrerem casos em que o vínculo estabelecido entre apadrinhado e padrinho ou madrinha se transformar em um vínculo maternal ou paternal, na relação de apadrinhamento os padrinhos não são os responsáveis legais pela criança ou adolescente. Para ser padrinho ou madrinha é preciso ter mais de 21 anos, participar de um curso oferecido nas Varas de Infância e Juventude com psicólogos, que também estarão presentes nas primeiras dinâmicas de aproximação com os apadrinhados, e ter a disponibilidade de estar presente na vida de quem já passou por tantos rompimentos e dor. No caso da adoção, ela é irrevogável justamente para evitar mais um trauma para as crianças e jovens sem família.

Com a demora do sistema de adoção no Brasil e a vontade de ser mãe, a publicitária Maysa Oliveira optou por outro caminho, que é o da adoção internacional. “Eu sempre tive vontade de adotar, desde que eu era bem jovem. Os anos foram passando e eu e meu marido tivemos problemas para engravidar. Quando a gente começou o processo de fertilização, a gente percebeu que aquilo não tinha nada a ver com a gente e já tínhamos conversado sobre adoção e ele falou que também adoraria ser pai adotivo. Teve uma vez que a gente foi no médico da fertilização que estava com a sua filhinha adotiva. Ao conhecer ela a gente olhou um para a cara do outro e pensou ‘o que estamos esperando? Todos os sinais possíveis do universo estão aqui’. Esse era o nosso caminho e decidimos dar entrada nos papéis. A gente continua na fila do Brasil, mas como demora muito, fizemos a adoção internacional e nosso filho, o Tom, é do Malawi, na África. Mas para as mamães que querem adotar, eu digo tenham muita fé, resiliência e perseverança porque é um caminho muito difícil e burocrático no Brasil, mas se é isso que vocês querem não desistam de forma alguma porque vale cada minuto e será a melhor coisa da sua vida”, afirma Maysa.

Maysa e Tom

E a experiência da adoção, seja nacional ou internacional, é exatamente igual ao da maternidade biológica, com muito amor e troca. “A maternidade me ensinou o que é amor infinito, que não cabe dentro do peito, uma alegria e uma força que a gente não imagina que tem por um serzinho tão pequeno que amamos tão profundamente. Esse amor infinito e essa força de querer fazer tudo por ele e ser uma pessoa melhor só conheci com a maternidade. O primeiro ‘mamãe eu te amo’ é uma explosão de emoção e amor”, conta Maysa.

Adotar é se permitir amar e ser amado, ganhar um novo sentido em sua vida e transformar a realidade de alguém que precisa.


Um manifesto Free Free pelo Dia das Mães

Ser mãe é transcender. E enquanto outras experiências transformadoras dependem de fatores externos, a maternidade é um turbilhão interno que envolve diversos sentimentos e sensações. E mais do que isso. Nos conectamos com a nossa energia mais profunda feminina.

Um amor incondicional que faz ser possível mensurar o significado de infinito. O medo de que o mundo não seja gentil ou permita que os sonhos de seu filho ou filha se realizem. A culpa ao ter que repreender, mesmo sabendo que você está certa. A coragem para fazer o que for preciso e enfrentar qualquer dificuldade.

Ser mãe não é abrir mão de si, mas mudar toda a forma de ver a vida. É sentir gratidão mesmo após descobrir um novo patamar de cansaço com noites mal dormidas. É sentir empatia por dores que não são suas, mas que também doem em você, afinal nossos filhos vão sofrer ao longo da vida e isso faz parte do crescimento deles. Não podemos evitar, mas podemos estar lá para eles. É sentir orgulho de toda conquista, por menor que seja. É errar e acertar. E não há livro, vídeo, dica, conselho ou tutorial que possa impedir nossos erros. Eles também fazem parte.

Para ser mãe não é preciso necessariamente passar pelo processo orgânico da gravidez. Podemos hoje escolher não sermos mães biológicas, mas aqui a maternidade que falamos é na verdade uma forma de amar. Além de mães, também somos filhas e carregamos em nossa essência a ancestralidade que nos conecta às mulheres do passado que podem ter tido hábitos e crenças diferentes das nossas, mas que compartilharam esses mesmos sentimentos que nós temos.

E por falar em compartilhar, todos temos ainda uma mãe em comum, que é a terra que vivemos, implacável em sua força. Na mitologia, do Caos nasceu Gaia, nossa Mãe-Terra, geradora da vida. E não é que o mesmo se aplica à nossa maternidade? Pois é de um caos que vem de dentro que mudamos paradigmas e prioridades quando nos tornamos mães. Parafraseando Beauvoir, ninguém nasce mãe, torna-se. E se você ainda não percebeu isso sozinha, já adiantamos que esse processo não tem começo, meio e fim. É cíclico. Sempre vamos aprender coisas novas com nossos filhos, sobre eles e sobre nós mesmas. Nada mais lindo e dolorido para uma mãe do que ver os passarinhos saírem do ninho para voarem por conta própria. Queremos estar lá para amparar todos os tropeços e quedas, mas em determinado momento não podemos interferir na inevitável independência. Apenas confiar que a outra mãe, a Mãe-Terra, será acolhedora.

Muitas mulheres não só tem o sonho da maternidade, mas associam que ser mãe é algo determinante para sua realização, para se sentirem completas. A sociedade também cobra muito isso e, ao chegar em determinada idade, a pergunta sempre vem: já pensou em ter filhos? Está na hora hein! Essa pressão deve ser ignorada, porque ser mãe ou não é um desejo que deve partir exclusivamente de dentro, de você. E para quem quer ser mãe, mas está com dificuldade de engravidar, o processo pode ser cansativo, uma mistura de fé e expectativa com frustração nos dias em que se sabe que não foi dessa vez. Já para quem não pode ter filhos, mas quer ser mãe, sempre existe a possibilidade de adoção, que vai trazer tanto amor para a sua vida como uma gestação. Essa possibilidade deve ser avaliada com carinho. Saber que tudo aquilo que você tem para oferecer pode e será muito apreciado por alguém que precisa receber esse afeto. Sim, o seu amor pode mudar outra vida além da sua. Mas não ser mãe, seja pelo motivo que for, não deve ser uma dor. Podemos ressignificar nossos sentimentos e utilizar essa mesma energia para outras coisas que também vão nos preencher.

Por muitos anos fomos governadas por dogmas, mas precisamos lembrar que antes, muitos séculos antes, as mulheres eram celebradas como divindades justamente pelo seu poder de gerar vida. Os anos de predominância do patriarcado que vieram depois deixaram claro que, hoje, tanto homens quanto mulheres devem entrar em contato com a sua deusa interior, porque as energias masculina e feminina existem e fluem em todos nós. Para cuidar de nossos filhos, de nós mesmas e da Mãe-Terra devemos criar, gerar, construir, curar e amparar. Ou seja, todos devemos ser um pouco mais mães. Filhas. Irmãs. Avós. Bruxas. Selvagens. Leoas. Lobas. Livres.


Mulheres na linha de frente

Essenciais. Elas decidiram não parar suas atividades durante essa crise que estamos vivendo para cuidar de vidas. Mesmo com medo elas dão tudo de si para exercer suas profissões na área da saúde, com cuidados redobrados para proteger suas famílias. Algumas são mães e outras trabalham com novas mães. Conheça as histórias incríveis de seis mulheres que estão na linha de frente durante essa pandemia neste especial que é um desdobramento da campanha #EuDecido do Free Free e MPSP.

“No dia 13 de março eu fui chamada às pressas na sala de reunião da UBS em que trabalho. Naquela tarde soube que minha unidade seria uma das referências para casos suspeitos com sintomas leves a moderados de Covid-19. No dia seguinte foi declarada a pandemia. Entrei em choque, desespero... sabia das consequências de uma pandemia.

Aqui, Manaus está no seu pior cenário. Se você sair hoje vai ver na periferia uma quantidade absurda de carros nas ruas, muitos idosos nas paradas de ônibus, no centro tem pessoas fazendo atividade física na rua sem a distância segura, algumas sem máscaras. Do outro lado temos uma média de 100 enterros por dia, aumento de 108% comparado ao ano passado.

Com meus pais, avós e minha irmã que está grávida não convivo há dois meses. Tive que me afastar para o bem deles. Eu e meu marido que somos médicos sabemos que é uma questão de tempo até que a gente se infecte, e nosso filho, que está conosco, é o motivo real do nosso medo e pavor.

Eu descobri que meu filho estava dentro do Espectro do Autismo quando ele tinha 1 ano e 6 meses. Tivemos que sair do interior do Acre e voltar para Manaus porque ele precisava iniciar as terapias. A pandemia chegou e bagunçou tudo... Daniel não vai mais para a escola, não pode mais conviver com a tia tão querida e não vai mais para as terapias e a natação.... e agora? Prazer continuo sendo a mãe que também é médica, mas agora é terapeuta e professora. E todo dia agradeço a Deus por poder cuidar dele e antes de dormir arrancar as risadas mais gostosas com as histórias mirabolantes que saem das nossas imaginações.

Sobre ser mãe e médica? Você não consegue sozinha, eu descobri isso cedo... é preciso de uma rede de apoio. Ser mãe de uma criança atípica requer muita ajuda e tenho toda a humildade do mundo de reconhecer que eu e meu esposo não teríamos chegado até aqui com nosso filho sem essa rede (avós, tias/tios, terapeutas e escola). Se até hoje eu consegui exercer minha profissão e ser uma mãe presente é porque eu tenho a minha rede. Coloco meu filho como prioridade e tento sempre que chego no meu ambiente de trabalho dar o meu melhor ali, ser proativa e tratar bem a todos, isso me faz bem. Mas no final do dia eu só quero chegar em casa e ficar com a minha família, ser mãe!".

"Eu comecei a trabalhar no PS e todo hospital começou a montar um gripário (local que só recebe pacientes com sintomas respiratórios) e no começo estava todo mundo com medo de ir para lá (inclusive eu por causa da minha filha), mas só tinha a gente para ir. Então conversei aqui em casa, ninguém queria que eu fosse, mas no fim convenci. Eu mudei toda minha vida aos 30 anos para fazer medicina porque eu queria atuar no Médicos Sem Fronteiras, com comunidades ribeirinhas e afins. Entenderam que eu queria e precisava ir.

Deixo tudo que uso no hospital no porta-malas do carro. Chegando em casa eu deixo minhas coisas que podem estar contaminadas num local específico e vou direto para o banho. A parte mais difícil é minha filha entender, mas agora ela está acostumando que eu chego em casa e não abraço ela. Na maioria dos dias meu marido a leva para me ver tomar banho e ela ficar mais calma. Ela adora ficar brincando no vidro do box comigo.

O meu trabalho é a parte inicial, eu recebo as pessoas que estão com sintomas e defino quem será internado ou não. Eu converso com os familiares explico o que está acontecendo e tiro as dúvidas. É a parte que as pessoas se desesperam pois eu me sinto na obrigação de falar que eles podem não se ver mais, mas que estaremos trabalhando para que seus amores fiquem bem. É muito triste essa parte. Pode ser a última vez que eles se veem e não podem abraçar quem está doente.

Eu tive câncer de mama, mais um capítulo da minha vida, e eu levei de maneira bem leve tudo que aconteceu, diferente de toda a minha família e meus amigos. Também teve o drama do cabelo caindo, mas no fim eu curti a careca. Nunca que eu faria isso por conta própria.

Enfim, acho que isso não mudou só a minha vida, mas de um monte de gente que estava ao meu lado. Eu sempre fui de achar que nada ia acontecer comigo, mas acontece e isso influencia nas minhas atitudes de hoje. Por exemplo, eu não sou desleixada com meus cuidados quando estou atuando com a Covid-19, porque eu posso pegar, não sou de ferro.

A cada dia que passa mais pessoas estão ficando doentes. Pessoas estão perdendo pessoas queridas. Medidas como lavar as mãos e respeitar o isolamento social podem mudar esse quadro. Acreditem que juntos somos mais fortes e que podemos fazer a diferença".

“Ir para a linha de frente não foi uma escolha. Por ser clínica é inerente à minha função atender as pessoas que entram no pronto-socorro. O hospital que eu trabalho fez vários treinamentos, deu orientação da paramentação e do atendimento, com foco em acolher. Na linha de frente o medo existe, todos têm, o que não pode ter é desespero. Quando vemos um colega desanimado tentamos dar esperança uns aos outros.

No meu trabalho na maternidade, muitas mães não sabem da gravidade da situação e outras pacientes não conseguem internar para ter o bebê na sala de parto com toda a estrutura. Sempre dá um pouco de angústia e medo de se contaminar dentro na maternidade. Também diminuiu a quantidade de acompanhantes, que é um direito da paciente. A dificuldade é de dar toda a assistência, de oferecer todo o acolhimento materno necessário sem ter EPIs suficientes. Tem casos de Covid-19 na maternidade e grávidas são pacientes de risco.

Gosto de dizer que ginecologia e obstetrícia me escolheu, não fui eu que escolhi. Eu perdi três gestações e em uma deles tive uma complicação e fiquei na UTI. Nessa época minha melhor amiga estava fazendo a prova de ginecologia e obstetrícia e decidi fazer também. Quando entrei comecei a entender tudo o que passei. Ver mães tendo bebês e ficando felizes me fazia sentir melhor, é reconfortante. Por causa da minha experiência, sempre tento fazer todo o trabalho de acolhimento quando a mulher precisa fazer uma curetagem e às vezes a encaminho para uma psicóloga. Então como pessoa melhorei muito, a ginecologia e obstetrícia me acolheu e trouxe sensibilidade. Meus abortos foram espontâneos e assim que tudo isso passar quero retomar o plano de ser mãe.

Agora estou na linha de frente e minha recomendação é que as pessoas fiquem em casa, cuidem dos idosos e aproveitem a pandemia para reforçar a importância dos laços familiares. Temos que tirar uma coisa boa de todo esse caos. Acho que serviu para toda a sociedade desacelerar. Antes não podíamos ficar com a família por isso ou aquilo e hoje, por um motivo de força maior, as pessoas notaram que é importante reforçar os laços, ter fé e acreditar que a gente vai conseguir sair dessa, fortalecidos”.

“Eu virei militante nesses tempos de Covid-19 porque se as pessoas não mudarem o comportamento isso vai continuar até setembro ou depois. Na minha área e falando com amigos vejo como isso está se alastrando, como isso é real, e a única arma que temos é o isolamento, exceto para ir ao mercado e farmácia se for inevitável. O que está acontecendo em São Paulo não é isolamento. Temos o pior dos dois mundos: comércios fechados, pessoas sendo despedidas, crise econômica, ao mesmo tempo em que a situação não está boa para afrouxar o isolamento, com hospitais com índices cada vez maiores de internações, UTIs cheias e o sistema de saúde colapsado.

Hoje eu só atendo urgências de obstetrícia e esse mês fiz quatro partos. É muito angustiante porque é uma doença nova. Estamos aprendendo todos os dias e entendendo como ela se comporta. Em uma gestação no terceiro trimestre existe o medo de acontecer alguma coisa antes de chegar ao final. As mães estão muito ansiosas e não podem receber visita no puerpério, só podem levar uma pessoa. Uma paciente minha tem uma filha de quatro anos que não pode ir na internação, por causa do risco de se contaminar dentro do ambiente hospitalar. O puerpério é uma das fases mais difíceis da mulher e algumas apresentam depressão pós-parto. Ver essa situação externa e lidar com o que acontece internamente, dá para imaginar como está o psicológico dessas mulheres.

As gestantes são parte do grupo de risco e podem ter a forma mais grave da doença. Há a indicação que o vírus não é transmitido para o bebê na gravidez, mas existem casos de contaminação logo após o parto. Complicações do quadro respiratório, mães com prematuridade extrema, mortes fetais, estamos lidando com todo tipo de situação.

As pessoas não estão entendendo o que está no noticiário, então isso tem que ser feito por nós, profissionais da saúde. Temos o papel de informar sobre o isolamento social para isso acabar mais rápido e com menos mortes.

A maior parte das pessoas, cerca de 80%, tem sintomas leves ou é assintomática, 15% são internados sem necessidade de respiradores e 5% precisam de UTI, mas os leitos têm vagas fixas. E não é só a questão das vagas, precisa de toda uma equipe.

Esse é um momento das pessoas terem responsabilidade e pensarem no coletivo. A gente nunca precisou do outro quanto precisamos agora. Enquanto todo mundo não se conscientizar disso, vamos viver essa pandemia por muito tempo”.

“Eu trabalho em uma UTI pediátrica e lá atendemos todos os tipos de patologias e doenças. Quando recebemos a primeira criança com suspeita de Covid-19 foi um susto, um turbilhão de medo e insegurança, mas não deixamos o medo vencer.

Nós nos paramentamos, usamos todos os EPIs e fomos trabalhar. Pedimos para que Deus nos proteja mais uma vez e demos todos os cuidados, como sempre demos a todas as outras crianças.

No trabalho agora temos que fazer uso da máscara e touca o tempo todo, e se atentar mais ainda na lavagem das mãos. Os pais não podem acompanhar as crianças que estão com suspeita e isso é o que mais dói para um pai e mãe.

Eu, como profissional da saúde, digo que nós estamos aqui por você, então fique em casa por nós. Mostre seu apoio, incentivo e gratidão aos profissionais que estão na linha de frente na luta contra a Covid-19”.

“Eu atendo em um consultório e faço plantões em uma maternidade privada. Atendo partos e sou defensora do parto normal, feito de forma respeitosa e com segurança, lógico. O que mudou com a pandemia é que houve uma redução dos atendimentos presenciais e aumento dos atendimentos remotos via telemedicina. Confesso que torcia o nariz um pouco para isso antes, porque a nossa formação é muito baseada na clínica, a gente aprende que tem que examinar o paciente, colocar a mão, mas agora estamos em uma situação que tivemos que nos adaptar. Outra mudança foi o acréscimo de EPIs para as consultas e partos. No começo da pandemia tinha aquele clima de medo entre os colegas que ainda paira pelo ar. A gente viu uma crescente, em uma semana começamos a usar máscaras, mais alguns dias atendemos pacientes com sintomas gripais com óculos, face shield, material impermeável e luvas, ou seja, foi crescendo a quantidade de acessórios utilizados na proteção. Essa demora no acréscimo desses materiais gerou um pouco de insegurança vendo a situação da infecção com quadros tão graves e a gente tendo que se expor. Nesse meio tempo muitos colegas foram contaminados. E eu também.

Cheguei a questionar, depois que tive a Covid-19, se estava fazendo a coisa certa. Minha profissão é muito importante, mas minha família e vida também. Questionei se eu deveria continuar, mas é um sentimento muito forte dessa missão que a gente carrega e eu não me vejo afastada, mesmo sabendo que há risco.

Minha filha começou com os sintomas antes de mim. Eu senti fraqueza, cansaço com os mínimos esforços e teve um dia que tive muito medo de morrer, não por mim, mas por ela. Meu marido também estava com sintomas gripais semelhantes. Eu via na TV um monte de gente morrendo no hospital, mesmo pacientes jovens, e sabia que ficar bem ou não era tudo muito rápido. Entrei em parafuso, fiquei desesperada em alguns momentos. Se eu e meu marido ficássemos graves, quem iria cuidar da nossa filha? Mas passaram os dias e a infecção oscilava muito, tinha dias que eu estava muito bem e em outros derrubada. Acabou passando, mas foi muito difícil ainda mais com criança pequena. Eu não podia ficar em um cômodo isolado porque ela é um grudinho e mama ainda.  Ficamos isolados juntos e reforçamos os cuidados. Eu fiz o teste e deu positivo, eles fizeram e deu negativo, apesar dos sintomas, mas é estranho eles estarem no mesmo ambiente e não terem sido contaminados.

Podemos fazer um paralelo entre ser mãe e cuidar de outras vidas. São duas tarefas que exigem extrema dedicação. É uma doação muito grande e uma dádiva, tanto uma posição quanto a outra. A mãe pode estar perto ou longe, mas vai pensar se seu filho está bem e a médica também tem essa preocupação com os pacientes. Temos um elo nos dois casos. Ser mãe trouxe muitas mudanças no ser médica. Meu envolvimento é mais intenso hoje porque, como obstetra, já estive no mesmo lugar das pacientes. Temos que vestir a capa de super-heroínas ao ser médicas e mães”.


Free Free + CUFA promovem festival

O Instituto Free Free, em parceria com a Central Única das Favelas (CUFA), realiza um festival online no dia 15 de abril para apoiar a iniciativa social “Mães da Favela”, que destinará doações para mães moradoras de comunidades fortemente atingidas pelos reflexos do Coronavírus (Covid-19). Mulheres influentes do mercado artístico, empresarial e judiciário do Brasil irão compartilhar experiências e conhecimentos em vídeos de 45 minutos, promovendo capacitações e resgate da autoestima a mulheres.

A partir das 15h45, Carol Sandler, Cleo, Dra. Valéria Scarance, Fiorella Mattheis, Nina Silva, Samantha Almeida e Sophia Abrahão abordarão temas como Direito das Mulheres, Finanças, Empreendedorismo, Culinária, Diversidade e Beleza. Durante o festival, será disponibilizado um link para doações, que serão destinadas à 20 mil mulheres em 20 estados brasileiros.

Com a crise do novo coronavírus, o Free Free tem realizado uma série de ações para auxiliar mulheres e suas famílias. Uma delas foi a parceria com o Ministério Público de São Paulo e a PepsiCo para doar mais de mil cestas básicas para mulheres que são chefes de família e foram atingidas pela pandemia, seja pela perda de seus empregos ou pela dificuldade em encontrar produtos.  Com a Riachuelo, foi criado o projeto “(Re)começos”, uma forma de auxiliar para que mulheres em situação de vulnerabilidade possam ter um novo começo durante e após a pandemia, a partir da doação de tecidos para upcycling e confecção de máscaras.

Ao longo da quarentena também foi criado o Círculo Free Free, com rodas de conversa online temáticas para manter a proximidade entre as pessoas neste período de grande impacto para a saúde emocional. “O momento pede cuidado e solidariedade. Esperamos que com o festival online possamos ajudar as mulheres que estão sendo mais impactadas com toda essa crise. As lives vão oferecer conteúdos importantes para todos e as doações podem ser feitas a partir de R$ 10. Juntos podemos fazer muito mais”, afirma Yasmine McDougall Sterea, fundadora do Free Free.

As lives serão transmitidas no Instagram e no YouTube do Free Free. “Temos milhões de mulheres que estão desamparadas por todo o Brasil, sem condições de colocar dinheiro em casa por conta do isolamento. Faremos o máximo possível para atenuarmos as suas dificuldades tendo em vista que 50% dos lares são chefiados por mães”, conta Celso Athayde, fundador da CUFA.

Programação:

15h45 – Fundo solidário destinado às mães da favela durante a crise da Covid-19, com Dinora, da CUFA

16h30 – Direito da Mulher, com Dra. Valéria Scarance, promotora de Justiça especializada em Gênero e Enfrentamento à Violência contra a Mulher

17h15 – Como fazer máscara caseira para momento de autoamor, com Fiorella Mattheis, atriz, modelo e apresentadora

18h – Dicas de como ser multitarefa em um mundo cada vez mais múltiplo, com Cleo, atriz e cantora

18h45 – Como organizar suas finanças para abrir um negócio, com Carol Sandler, fundadora da plataforma online Finanças Femininas e da TV Carol Sandler

19h30 – Como empreender no mundo digital, com Nina Silva, sócia fundadora do Movimento Black Money e uma das 100 pessoas afrodescendentes com menos de 40 anos mais influentes do mundo

20h15 – Importância da diversidade para a publicidade, com Samantha Almeida, head de Conteúdo da Ogilvy

21h – Cozinha afetiva, com Sophia Abrahão, atriz, cantora e apresentadora

Sobre o Free Free

O Free Free é uma plataforma multidisciplinar e instituto, criados pela diretora criativa Yasmine McDougall Sterea, que atuam por um mundo onde meninas e mulheres possam alcançar a liberdade física, a saúde emocional e a independência financeira. Esse caminho é criado pelo Método Free Free, baseado em ciclos de desenvolvimento que despertam a potência criativa de cada mulher através da moda, promovendo capacitações profissionais e o resgate da autoestima. De forma geral, mais de 5 mil pessoas já foram impactadas por palestras, workshops e ações sociais do Free Free. Mais de 100 mil pessoas foram impactadas pelo projeto direta ou indiretamente. Com o MPSP, que encaminha mulheres em situação de vulnerabilidade social e emocional para os workshops do Free Free, foram realizadas as campanhas #EUDECIDO, que tem como foco promover a liberdade da mulher a partir do momento em que ela toma suas próprias decisões e #A_GENTE, que convida homens e mulheres a lutarem contra a violência e desigualdade de gênero. Com essas ações, especialmente a campanha #A_GENTE, no final de 2019 a presidente do Free Free, Yasmine McDougall Sterea, foi nomeada uma das 19 mulheres do ano pela Universa do UOL.

Sobre a CUFA

A Central Única das Favelas (CUFA) é uma organização brasileira reconhecida nacional e internacionalmente que há 20 anos promove atividades nas áreas da educação, lazer, esportes, cultura e cidadania, com oficinas de grafite, DJ, break, rap, audiovisual, basquete de rua, literatura, entre outros projetos sociais. Através de parcerias, apoios e patrocínios, a CUFA forma e informa os cidadãos do Rio de Janeiro e dos outros 26 estados brasileiros, além do Distrito Federal e de países como Bolívia, Alemanha, Chile, Hungria, Itália e Estados Unidos. A equipe CUFA é composta, em grande parte, por jovens formados nas oficinas de capacitação e profissionalização das bases da instituição e oriundos das camadas menos favorecidas da sociedade, em sua maioria, moradores de comunidades em situação de vulnerabilidade. Entre as ações da CUFA estão a Taça das Favelas,  competição de futebol de campo entre 90 seleções compostas por moradores de favelas, e a Maria-Maria, onde as Marias são mulheres da CUFA nos estados, negras ou não, que, além de constituírem um projeto coletivo e democrático dentro da instituição, tentam organizar o discurso das mulheres das periferias, sobretudo as jovens, para que elas possam se estimular e participar dos processos políticos de decisão e ocupação de espaço.


Ação doa cestas básicas na pandemia

Segundo o IBGE, há 34,4 milhões de lares brasileiros chefiados por mulheres e esse número vem aumentando desde 2016. Além disso, 5,5 milhões de crianças não são registradas pelo pai e as mães são as únicas responsáveis pela sua manutenção.

Em meio à pandemia e isolamento social, as famílias que vivem em situação de vulnerabilidade sofrem ainda mais, pois muitas pessoas perderam seus empregos ou tiveram que parar com suas atividades autônomas.

Por esse motivo, o Free Free se uniu ao Núcleo de Gênero do Ministério Público em uma ação para distribuir cestas básicas de alimentos e produtos de higiene para famílias carentes que estão passando por dificuldades em meio à pandemia do novo Coronavírus. A Pepsico por meio da marca eQlibri, doará aproximadamente mil cestas básicas que serão destinadas à Casa da Mulher Brasileira, Casa Santa Maria, Artesãs da Linha 9, ONG Interferência, instituições que dão suporte a mulheres de baixa renda e periféricas. A campanha contemplará também as mulheres da Aldeia do Jaraguá, em São Paulo.

O momento é de ação e união. A distância física não nos afasta de nossa missão: trabalhar por um mundo melhor para nossas mulheres

Yasmine Sterea - Presidente do Free Free
Valéria Scarance - coordenadora do Núcleo de Gênero
Daniela Cachich - VP de Marketing da Pepsico


Como manter a saúde emocional durante a crise?

Talvez a sensação de controle seja sempre falsa. Não podemos prever quando algo ruim vai acontecer, como um acidente. Mas viver em estado de alerta é bastante complicado. Já é difícil ter que lidar com a nossa saúde emocional no cotidiano, apenas com a vida frenética que levamos. E fica mais difícil ainda no atual momento, com tantas incertezas.

Não se trata apenas do risco de contrair um vírus e a preocupação com as pessoas que gostamos que são mais frágeis. A sensação é a de estarmos estagnados, sem saber quando tudo voltará ao normal.

É muito bom ficar em casa e aproveitar o conforto do nosso cantinho, mas somente se isso for uma opção, e não uma necessidade. Não é o caso de discutir se as reações sobre à atual pandemia são exageradas ou se a preocupação é real, mas é inegável que estamos vivenciando um sentimento de angústia coletivo.

Angustiados ao ir no mercado e não encontrarmos os produtos que queremos. Com saudades de pessoas que gostamos, mesmo aquelas que vimos há pouco tempo, mas que agora não devemos ver. Saudades da nossa rotina.

O momento pede cuidado. Cuidar de nós e dos outros. É preciso ter em mente que tudo isso vai passar, que mais pacientes vão se curar do que morrer e que na maior parte dos casos os sintomas são leves ou não se manifestam.

Cuide do seu corpo <3
Mesmo com academias fechadas, se puder fazer exercícios em casa, meditar e ter uma boa alimentação, essas coisas são fundamentais para manter a saúde física e emocional.

Arrume a casa <3
É muito gostoso estar em um lugar limpo e organizado. Na rotina, às vezes deixamos tarefas domésticas para outra hora. Além do resultado ser bom, dá para aproveitar o processo de forma terapêutica, não como uma obrigação.

Evite o excesso de informações <3
Ficar conectado com as notícias o tempo todo causa mais preocupação e inquietação. É válido filtrar a quantidade e qualidade das informações, estabelecer um período do dia para se informar, e procurar histórias positivas. Elas também estão acontecendo.

Se conecte com pessoas <3
Felizmente não faltam ferramentas para entrarmos em contato com as pessoas que amamos. Ligue ou faça chamada de vídeo com uma amiga ou familiar, só para dar um oi e jogar conversa fora. Temos que ficar fisicamente distantes, mas sempre estaremos perto das pessoas que são especiais.

Faça coisas que gosta <3
Hora de pegar aquele livro que ficava te olhando na prateleira. Dançar sozinha na sala de casa. Fazer uma experiência na cozinha, sem pretensão de dar certo. Maratonar uma série. Fazer coisas criativas como pintar, desenhar, costurar. Tentar se divertir e aproveitar da melhor forma o tempo disponível.

E pode confiar, vai passar. Se aquela voz interior tentar te preocupar, respire profundamente, pare o que está fazendo, feche os olhos. A vida é um jornada e cabe a nós mesmos torná-la leve e agradável, independentemente das adversidades.

Estamos juntas sempre, mesmo que não fisicamente no momento.


Nosso manifesto por mais equidade de gênero

Insatisfação. Muitas de nós estão constantemente insatisfeitas. Insatisfeitas com nossa aparência. Insatisfeitas com nossos relacionamentos. Insatisfeitas com a ausência de um relacionamento. Insatisfeitas em receber menos no trabalho.

Mas foi justamente essa insatisfação que fez as mulheres do passado iniciarem uma jornada que transformou e continua a transformar nossa posição na sociedade. E nós vamos chegar lá, na tão sonhada igualdade.

Somos a soma das mulheres incríveis que vieram antes de nós, das pioneiras do presente que nos inspiram com seu trabalho e, juntas, vamos preparar um mundo melhor para as meninas que ainda virão.

Somos mães, filhas, empresárias, trabalhadoras, chefes de família, donas de casa, donas da nossa própria vida. Somos mulheres.

Aprendemos que nossos corpos merecem ser amados, do jeitinho que são, e não precisamos seguir padrões estéticos e irreais que por anos foram impostos pela mídia. Aprendemos que é muito bom ter um relacionamento, desde que ele seja de fato uma parceria, com respeito e carinho. E que também não é triste ficar sozinha ou optar por não ter filhos.

Aprendemos que ninguém deve se cobrar para ser uma mulher-maravilha: que acha que deve dar conta de ser bem-sucedida no trabalho, ser uma esposa sempre bem-humorada, criar e educar os filhos, fazer exercício sempre, manter a casa limpa e abastecida, e tudo isso com o cabelo arrumado e a unha feita. Não! Podemos ser imperfeitas. Podemos aprender errando. Podemos apenas ser. Aprendemos que saúde mental é muito importante e que nossas angústias não devem ser diminuídas.

E o mais importante: aprendemos o conceito de sororidade. Que juntas somos mais fortes e que nas horas de dificuldade podemos contar umas com as outras.

Queremos ver mais mulheres liderando e criando empresas. Queremos ver mais mulheres na ciência. Queremos que nenhuma mulher seja julgada pela roupa que usa e que o mundo seja um lugar seguro para todas.

Somos diferentes, somos únicas. Cada mulher é um universo particular com o potencial de fazer sua estrela brilhar. E para isso temos que ter oportunidades iguais!

Não é sobre cor, gênero, partido político. É sobre a mudança que o mundo pede, onde somos gente. Mulheres e homens que juntxs podem unir forças para transformar nossa sociedade.

A_gente acredita em um mundo melhor, onde todos possam viver com a liberdade de ser quem são, sabendo respeitar, acolher e principalmente aprender com as diferenças.

A_gente acredita em sorrisos, em histórias de vida, em experiências que agregam, em afetos que transformam, e em elos que curam. Não partimos do mesmo ponto, não temos os mesmo privilégios, mas a_gente tem esperança de ver um mundo melhor e seguimos em busca de uma sociedade menos desigual.

A_gente é um manifesto do Free Free que aborda a equidade de gênero, desigualdade social e preconceitos de forma geral. Acreditamos que acolher as diferenças é um ato revolucionário e que a melhor solução para a sociedade é o respeito e empatia.

Vamos juntas transformar isso em realidade?

 


Free Free vestiu a Riachuelo

No sábado (7) a Riachuelo abriu sua casa para receber o Free Free e um time de mulheres incríveis que representam, cada uma do seu próprio jeito, valores que acreditamos muito. A abertura foi feita pela Marcella Kanner, head de marketing da Riachuelo. “Hoje temos essa oportunidade para refletir juntas. Ainda temos muito a ser conquistado e nós, da Riachuelo, temos o propósito de transformar a vida das pessoas através da moda. Isso tem tudo a ver com autoestima”, disse.

A maravilhosa rapper Stella Yeshua fez a mediação do bate-papo. Antes de ser influencer, a Stella contou que trabalhou na Riachuelo e falou sobre a experiência de voltar à loja, dessa vez para participar de um encontro sobre uma causa que acredita muito que é a liberdade feminina. “Fazemos parte de um milênio de mulheres que se ajudam e se entendem. Temos que contribuir para fazer todas as mulheres chegarem ao topo” – Stella Yeshua

Em seguida, cada convidada falou sobre o que significa a liberdade para elas e como isso influenciou a construção de sua autoestima.

Comecei a odiar meu corpo com 9 anos. Passei por todo tipo de dieta, tive anorexia e bulimia, fiz lipoaspiração e tentei o suicídio, tudo isso porque estava aprisionada em um padrão estético que não era o meu. Liberdade para mim é a vida que tenho hoje. Graças a minha imagem conheci o feminismo e aprendi que o corpo deve ser livre. Isso conversa muito com o Free Free. O maior relacionamento abusivo que nós temos é com a gente mesmo, o meu durou 26 anos” - Alexandra Gurgel (@alexandrismos), fundadora do Movimento Corpo Livre que auxilia meninas e mulheres a amarem seu corpo e não se prenderem a padrões estéticos.

Minha história com liberdade está relacionada ao dinheiro. Aprendi com meu pai a guardar a mesada e minha mãe falava sempre que eu não devia depender de homem nenhum. Quando meus pais se separaram isso ficou mais claro ainda. Liberdade para mim é poder ter escolhas e para isso precisamos ter independência financeira. Existia uma mentalidade de que se você tem dívidas, a culpa é sua e não é assim. A principal parte do meu trabalho acontece pelo inbox no Instagram onde converso com as mulheres. Nunca vamos olhar para uma mulher e falar ‘seu problema é ser consumista, tá comprando muitas brusinhas’. As pessoas têm problemas e temos que entender o caso de cada uma para ajudar. Quando são independentes, as mulheres conseguem montar seu próprio negócio, comprar um apartamento e até sair de um relacionamento ruim” - Carol Sandler, fundadora da plataforma Finanças Femininas (@finançasfemininas), sócia e diretora de conteúdo da Ella’s Investimentos.

Com a experiência que teve como jornalista que cobria o mercado financeiro e a partir da história dos pais, a Carol montou o Finanças Femininas em 2012 ao perceber que apenas 20% do público que consome o conteúdo de sites de finanças são mulheres. Seu trabalho, mais do que resolver problemas ligados ao dinheiro é o de acolher mulheres que estão passando por dificuldades.

Todos os convidados se emocionaram muito com o relato de vida da Thelma do Vale, que participou do primeiro workshop realizado pelo Free Free. Ela se mudou do interior para São Paulo porque não tinha perspectiva de emprego em sua cidade natal. Depois de dois meses conseguiu trazer seus filhos para cá. Trabalhou como babá ganhando R$ 400 por mês, mesmo valor do aluguel que pagava na pensão onde morava. Com muito esforço conseguiu juntar dinheiro e financiar um apartamento próprio. Após se separar do pai de seus filhos, teve um novo relacionamento que acabou se revelando abusivo. Ela teve que se separar com medida protetiva. Perdeu seu emprego e o apartamento onde morava. Após ser encaminhada para participar do workshop, sua vida começou a mudar. Conseguiu bolsas e voltou a estudar. Se formou como maquiadora e hoje é independente.

A vida dá voltas e coloca pessoas boas no seu caminho. Me permiti ser cuidada e isso transformou a minha vida, sempre apoiei outras pessoas, mas tive um momento em que precisei ser apoiada. Podemos cuidar do próximo, mas sem esquecer de cuidar de nós mesmas, nos ajudar, nos valorizar e nos dar oportunidades primeiro” – Thelma do Vale

A última fala foi da Yasmine McDougall Sterea, fundadora do Free Free, que contou como o suicídio da mãe e, alguns anos depois, o nascimento de sua filha, a transformaram e motivaram a querer criar um projeto para que mulheres se sintam acolhidas e possam conquistar a vida que desejam. Sua experiência com o mundo da moda também foi um fator que contribuiu para a criação do Free Free.

Sempre trabalhei com moda e amava o trabalho criativamente, mas não me conformava com a moda que ditava padrões, que não incluía, mas excluía. Quando engravidei da Violeta, passei por um processo de transformação. Eu já tinha sucesso profissional e financeiro, mas não era livre porque eu não tinha trabalhado minha dor, o trauma que tive com a minha mãe. Comecei a estudar várias terapias para me curar e criei a metodologia do Free Free, usando a moda como uma ferramenta tangível.. Minha filha me deu a coragem de levar a minha carreira para um caminho diferente. Criar o Free Free não é somente uma missão minha, pessoal, de autoconhecimento, mas coletiva. Já impactamos milhares de mulheres e a ideia é impactar milhões. Levar liberdade física, emocional e financeira para meninas e mulheres” – Yasmine McDougall Sterea.

Você pode ver como foi o evento aqui:

 

 

 


Queremos igualdade salarial e segurança

Sobre ganhar flores no Dia Internacional da Mulher por nossas qualidades como delicadeza, feminibilidade, espírito maternal, empatia: é verdade, algumas de nós temos essas características mesmo. Mas obrigada, preferimos que o agradecimento seja na forma de igualdade. Que, aliás, nem agradecimento é. É o básico. É o justo.

Ao contrário de outras datas de origem e propósito comercial, o Dia Internacional da Mulher nasceu para lembrar a luta de mulheres do início do século XX por melhores condições de trabalho, com jornadas em fábricas que chegavam a 16 horas, seis dias por semana. Na mesma época, nos Estados Unidos, mulheres marchavam para conquistar o direito de votar. A data foi oficializada pela ONU em 1975.

De lá para cá, bastante coisa mudou, as mulheres conquistaram seu espaço, mas a igualdade ainda não é uma realidade. Segundo um estudo feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mesmo com uma queda na desigualdade salarial entre 2012 e 2018, as trabalhadoras ganham, em média, 20,5% menos que os homens no Brasil. A pesquisa também aponta que a diferença de horas trabalhadas por homens e mulheres está diminuindo...mas isso porque os homens diminuíram suas jornadas! Se em 2012 a diferença de horas trabalhadas por homens e mulheres chegava a 6 horas, em 2018 caiu para cerca de 4 horas e 48 minutos.

Isso não tem absolutamente nada a ver com a dedicação de cada um ao trabalho, e está muito mais ligado ao fato das mulheres se dedicarem não só aos seus empregos, mas também às tarefas domésticas, criação dos filhos. A divisão dos trabalhos “fora do trabalho” ainda é bastante desigual.

Chamamos de divisão sexual do trabalho a construção social que no passado delegava funções ligadas à política e ao dinheiro ao homem, e tarefas domésticas à mulher. Isso está mudando a passos lentos e ainda é comum que as mulheres façam a “dupla jornada”, ou seja, além de trabalharem fora ainda fazem a maior parte do serviço doméstico em casa. Um estudo da  Organização Internacional do Trabalho (OIT) prevê que a desigualdade de gênero no trabalho doméstico só deve acabar daqui a 209 anos! O relatório ainda aponta que enquanto as mulheres de países em desenvolvimento gastam em média 4 horas e 30 minutos com o trabalho doméstico por dia, os homens gastam 1 hora e 20 minutos com esse tipo de tarefa.

Além dessa barreira no trabalho e serviço doméstico, temos ainda a questão da segurança. Quer fazer um teste? Digite a palavra “mulher” na pesquisa do Google e clique na aba “notícias”. Não faltam resultados sobre casos de violência e feminicídios. Para entender o privilégio masculino basta lembrar o caso divulgado há dois anos em que três estudantes da Flórida criaram um canudo que consegue identificar a presença de drogas em bebidas, uma forma de impedir que mulheres sejam estupradas. O caso, ao ser divulgado nas mídias sociais, teve vários comentários de homens brincando com a situação ao dizer coisas como “quero um canudo desse para saber qual bebida devo tomar para ficar louco”. Ou seja, enquanto as mulheres se preocupam em manter sua integridade física, alguns homens estão mais preocupados em se divertir.

Por essas questões, o Dia Internacional da Mulher é um momento de pensar nas lutas do passado que nos permitiram avançar e o tanto de coisas que ainda precisamos conquistar.  E melhor do que ganhar flores é saber que não estamos sozinhas nessa jornada. Vamos juntas?